quarta-feira, 24 de agosto de 2011

O preconceito sentido na pele


A arte é uma atividade desenvolvida pelos homens a fim de representar suas emoções, idéias e desejos. A externalização da subjetividade é cultuada pelos apreciadores por sua singularidade. Cada povo, com sua respectiva cultura, expressa nas manifestações artísticas, e em diferentes épocas, sua visão de mundo e de si mesmo. 
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Os mais pragmáticos e insensíveis procuram uma utilidade racional e imediatista para arte.  E, não por acaso, tentam subordiná-la ao domínio dos parâmetros puramente racionais de uma sociedade. A arte, porém, possui uma função contemplativa e, por que não, transcendental. A arte é, também, uma forma sutil de dizer o que não conseguimos falar apenas com palavras, ainda que os observadores possam fazer inúmeras interpretações.
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Para expor suas manifestações, os artistas utilizam mídias. Quadros, telas, esculturas, papéis, películas, acordes são exemplos de meios com os quais a arte é construída. Entre eles, o mais contestado nos dias atuais é pele humana, ou seja, a mídia viva onde se desenvolve a tatuagem ou – tecnicamente dizendo – a dermopigmentação artística. 
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Apesar do gradativo aumento da aceitação geral da tatuagem, essa “arte na pele” ainda é vista como estigma marginal pelos setores mais conservadores da sociedade brasileira. Destacamos, portanto, três preconceitos: o religioso, o familiar e o preconceito no mercado de trabalho.
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No século VIII – durante a Idade Média – a Igreja Católica baniu a tatuagem entre os cristãos por considerá-la uma violação demoníaca do corpo, sede do espírito santo. Desde então, muitos cristãos (católicos e/ou evangélicos) apóiam suas repulsas à arte subcutânea em trechos bíblicos que proíbem a realização de marcas no corpo, como por exemplo, em Levíticos capítulo 19, verso 28, que diz: "Não fareis incisões na vossa carne, por causa de algum morto, nem fareis figura alguma ou sinais sobre o vosso corpo".
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Apesar disso, uma nova parcela dos cristãos da atualidade acredita que o modo como as pessoas se vestem ou expressam sua cultura através de adornos e tatuagens não interfere no bom relacionamento com Deus. Para esses religiosos, a expressão cultural é mutável e as condenações bíblicas aos sinais no corpo referem-se aos povos antigos que viviam sobre as penas da Lei.
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Os problemas de aceitação dessa arte subcutânea ocorrem ocasionalmente no interior das famílias. Geralmente, o choque de conceitos e valores entre pais e filhos dá o tom da discórdia. Por um lado, os pais apóiam-se na tradição familiar e na legislação brasileira. O Estatuto da Criança e do Adolescente, em seu artigo 17, resguarda à criança o direito de “inviolabilidade da integridade física”, podendo o responsável responder por processo de lesão corporal. Mas, de outro lado, as novas gerações aderem, cada vez mais, às tatuagens como forma de identidade corporal, estilo de vida, vaidade, manutenção de um simbolismo em seu corpo ou por simples contemplação da arte em mídia viva.
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No mercado de trabalho, os problemas de aceitação de pessoas tatuadas são ainda mais recorrentes e complicados. Os tatuados candidatos a vagas de empresas enfrentam uma prática comum no processo de admissão. Os que não possuem “visual adequado” ou “boa aparência” são prejudicados no processo de seleção.  Na maioria dos casos, o preconceito nem é do empregador, mas de sua clientela. Para mudar esse quadro, muitas empresas, com visão moderna, têm inserido funcionários com visual moderno. Esta ação tem a finalidade de quebrar o paradigma que relaciona ineficiência e caráter no mercado trabalho com a presença de tatuagens pelo corpo.
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Além disso, no âmbito da legislação brasileira, alguns projetos de Lei pelo país advogam a causa dos tatuados no mercado de trabalho. A Câmara dos Deputados está examinando o Projeto de Lei 1582/07, do deputado Edson Duarte (PV-BA), que proíbe qualquer prática discriminatória e limitativa de acesso a emprego, ou sua manutenção, contra pessoas portadoras de tatuagem e piercing. O projeto tramita junto ao PL 3980/00, em regime de prioridade, e será analisado pelas comissões de Trabalho, de Administração e Serviço Público; e de Constituição e Justiça e de Cidadania. A proposta está sujeita ainda à votação em Plenário.
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Diante dos problemas expostos, o presente ensaio fotográfico visa mostrar que qualquer cidadão não deve ser julgado por qualquer que seja a arte corporal que possua. Com o intuito de chamar a atenção para a essência do ser, as fotos foram editadas deixando em cores frias a parte do corpo em que se encontra a tatuagem, pretendendo assim, fazer com que a tatuagem não seja levada em consideração ao primeiro olhar. Tive como inspiração a fotógrafa Anna Gaskell, que em muitas de suas fotografias se preocupava em evidenciar o que ele queria mostrar sem se importar com o enquadramento padrão. A proposta traz pessoas comuns que conseguiram quebrar esse preconceito na sua vida social, religiosa ou familiar.